quarta-feira, 9 de julho de 2008

Incêndio - Agosto de 1974

Carvalhal-Miúdo, férias... Manhã de dia 10 de Agosto de 1974, estávamos a terminar o pequeno-almoço... de repente alguém gritou: "Há fogo no Roubal!..."
Foi uma correria... apareceram pessoas das Ladeiras (os meus primos Luís e Jorge, também estavam de férias), do Esporão (recordo-me, plenamente, do "Ti" Américo...mais tarde explico porquê!...) e de outros lados. Fizeram-se aceiros para evitar a propagação do incêndio... sacudidela daqui, batidela dacolá... baldes de água que vinham chegando... e as chamas são dadas como controladas e de seguida extintas, pouco tempo depois...
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Almoçávamos... num ápice todos se levantam!... Que é? Que é?...
Anda fogo lá em baixo, outra vez!...
Lá foram todos a correr, novamente. Mesmas atitudes, semelhantes movimentos, mais auxílio que chega (lembro-me do "Ti" Américo, do Esporão...), bate-se daqui, bate-se dacolá... mas, numa rapidez inesperada, o vento muda... o fogo altera o seu percurso e a sua "atitude", e, desembreadamente, inícia uma intensa galopada, ávido de mato para consumir e queimar. Todos começam a fugir!... Eu levava uns sapatos calçados que escorregavam nas carumas (dois passos para a frente, três ou quatro para trás...). O Luís gritava pelo meu nome e pelo do Jorge... já não se via ninguém e nada se vislumbrava (parecia que éramos incapazes de discernir e ver, fosse o que fosse...). Nunca mais conseguia chegar a terreno fixe, para poder zarpar dali... nisto surge uma mão amiga, era a do "Ti" Américo...
O fogo começou a galgar terreno, de forma tal, que, humanamente, se tornou impossível combatê-lo (pelos menos por civis, como nós), subiu a caminho da estrada nacional... outros focos apareceram, devido às fagulhas que o vento transportava (Celada da Corte, recordo-me...), e foi um ver se te avias!...
Vieram bombeiros de toda a parte, aviões de diversos lados... era jorrar água das mangueiras (gritos daqui, orientações dacolá), líquido para suster o incêndio, deitado pelos meios aéreos (ainda levei com parte nas costas, fiquei com o corpo todo pegajoso...). Nunca se bebeu tanto leite por estes lados!...
As pinhas estalavam, os troncos das árvores sucumbiam (menos os dos eucaliptos, que meses depois haveriam de dar novos ramos...) e as labaredas eram cada vez maiores. Só passadas algumas horas (e muitas...), o fogo foi dado como controlado.
Foram dois ou três dias de suplício e permanente vigilância. A quantidade de árvores queimadas, e terra ardido, foi imensa.
Só quando cheguei a Lisboa, depois das férias (mais tarde, bem mais tarde...), e depois de estabilizar ideias, dei conta do que realmente sucedeu e do desastre ambiental que foi... para além do prejuízo havido.
Ainda hoje, quando recordo este grande acidente (da natureza?!...), vem-me logo à lembrança o "Ti" Américo, do Esporão...

Obrigado sr. Américo!!!

foto de António Martins (No dia seguinte, novo episódio do incêndio - Celada da Corte, Agosto de 1974)

2 comentários:

Alzira Oliveira disse...

Foram dois dias horriveis que ficaram gravados na minha memória

M Barata disse...

Os fogos nas aldeias, na serra são verdadeiros dramas. Porque destroem o que temos, porque não conseguimos controlá-los. E porque o amanhecer do outro dia a olhar para a terra negra que é nossa, já com a paisagem querida absolutamente destruída é muito dificil de suportar.
Valham-nos os bombeiros, os vizinhos e os amigos, a entre-ajuda nestes momentos conta tanto!