quarta-feira, 9 de julho de 2008

Incêndio - Agosto de 1974

Carvalhal-Miúdo, férias... Manhã de dia 10 de Agosto de 1974, estávamos a terminar o pequeno-almoço... de repente alguém gritou: "Há fogo no Roubal!..."
Foi uma correria... apareceram pessoas das Ladeiras (os meus primos Luís e Jorge, também estavam de férias), do Esporão (recordo-me, plenamente, do "Ti" Américo...mais tarde explico porquê!...) e de outros lados. Fizeram-se aceiros para evitar a propagação do incêndio... sacudidela daqui, batidela dacolá... baldes de água que vinham chegando... e as chamas são dadas como controladas e de seguida extintas, pouco tempo depois...
...................................
Almoçávamos... num ápice todos se levantam!... Que é? Que é?...
Anda fogo lá em baixo, outra vez!...
Lá foram todos a correr, novamente. Mesmas atitudes, semelhantes movimentos, mais auxílio que chega (lembro-me do "Ti" Américo, do Esporão...), bate-se daqui, bate-se dacolá... mas, numa rapidez inesperada, o vento muda... o fogo altera o seu percurso e a sua "atitude", e, desembreadamente, inícia uma intensa galopada, ávido de mato para consumir e queimar. Todos começam a fugir!... Eu levava uns sapatos calçados que escorregavam nas carumas (dois passos para a frente, três ou quatro para trás...). O Luís gritava pelo meu nome e pelo do Jorge... já não se via ninguém e nada se vislumbrava (parecia que éramos incapazes de discernir e ver, fosse o que fosse...). Nunca mais conseguia chegar a terreno fixe, para poder zarpar dali... nisto surge uma mão amiga, era a do "Ti" Américo...
O fogo começou a galgar terreno, de forma tal, que, humanamente, se tornou impossível combatê-lo (pelos menos por civis, como nós), subiu a caminho da estrada nacional... outros focos apareceram, devido às fagulhas que o vento transportava (Celada da Corte, recordo-me...), e foi um ver se te avias!...
Vieram bombeiros de toda a parte, aviões de diversos lados... era jorrar água das mangueiras (gritos daqui, orientações dacolá), líquido para suster o incêndio, deitado pelos meios aéreos (ainda levei com parte nas costas, fiquei com o corpo todo pegajoso...). Nunca se bebeu tanto leite por estes lados!...
As pinhas estalavam, os troncos das árvores sucumbiam (menos os dos eucaliptos, que meses depois haveriam de dar novos ramos...) e as labaredas eram cada vez maiores. Só passadas algumas horas (e muitas...), o fogo foi dado como controlado.
Foram dois ou três dias de suplício e permanente vigilância. A quantidade de árvores queimadas, e terra ardido, foi imensa.
Só quando cheguei a Lisboa, depois das férias (mais tarde, bem mais tarde...), e depois de estabilizar ideias, dei conta do que realmente sucedeu e do desastre ambiental que foi... para além do prejuízo havido.
Ainda hoje, quando recordo este grande acidente (da natureza?!...), vem-me logo à lembrança o "Ti" Américo, do Esporão...

Obrigado sr. Américo!!!

foto de António Martins (No dia seguinte, novo episódio do incêndio - Celada da Corte, Agosto de 1974)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Notas poéticas sobre Carvalhal-Miúdo e Ladeiras de Góis

Ladeiras, lugar de encantos...
aldeia onde meu pai nasceu;
que por entre seus recantos,
sua infância, por lá viveu!...

E Carvalhal-Miúdo desponta,
Num dos cabeços da Serra...
O que é para muitos, afronta,
Para minha mãe, é sua terra!...

Sítios pitorescos a monte...
Canto da parede, Lameiros,
Cerrado e Costa do Pinhal.

Abeceira, Vale da Fonte,
Barroca, Calçada dos Sobreiros,
Coiço, Mioteira e Roubal.

Por António Martins (hoje...)


foto de António Martins (Ramalhuda - Carvalhal-Miúdo - Setembro de 2007)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Manuel Bandeira (pai)

Natural do Esporão, da Boleirinha. Era padrinho de baptismo da minha mãe...
Veio para Lisboa laborar na Fábrica da Central de Cervejas (no edifício contíguo à actual Cervejaria Portugália, na Avenida Almirante Reis). Ao aposentar-se (naquela altura não existia a reforma) regressou à sua casa, da aldeia onde nasceu.
Na luta pela sobrevivência teve de ír trabalhar a dias, nas terras de outrém... conforme as lides agrícolas, e as respectivas necessidades, dos possuídores de courelas e terrenos para amanhar e manipular.
Não foi fácil a sua vida, viveu com muitas dificuldades, e humildemente...
Antigamente, era hábito (aquando da passagem de férias) levar para os residentes (familiares e amigos) mercearias e outros produtos de efectiva premência. Para ele (da parte dos meus pais), ía sempre uma parcela, o que agradecia imenso... mas quando o meu pai lhe dava duas onças de tabaco, e o respectivo papel, até os seus olhos brilhavam!...
Sempre de cigarro na boca (era apagar um, acender outro, preparado, sempre, de forma idêntica...), trabalhou até quase ao fim da vida (perto dos 90 anos...). Ainda tenho na retina, ele, de provecta idade, com um molho de mato às costas...
Recordo as suas docilidade e ternura!...

domingo, 6 de julho de 2008

António Rodrigues "Linardo"

Uns dos grandes impulsionadores (senão o mais acérrimo...) do movimento dos anos 40 (um grupo de cinco ou seis pessoas, emanadas pelo mesmo ideal), tentado a organizar uma Comissão de Melhoramentos para a aldeia de Carvalhal-Miúdo, que por diversas situações nunca conseguiram levar a bom termo (nunca se concretizou a sua oficialização, embora o movimento tivesse conseguido alguns melhoramentos para a aldeia).
Comerciante em Lisboa, no ramo das engraxadorias (muitos conterrâneos vinham para a capital e inseriam-se a trabalhar nesta actividade). Teve dois filhos do seu segundo casamento, com a D. Olinda, Maria Emília (hoje residente no Esporão) e António (com o qual privei imenso, na minha infância, como companheiro de brincadeiras, pelos campos de Carvalhal-Miúdo). Do primeiro casamento, com D. Alice, teve três filhas.
Domiciliado em Lisboa, no Bairro Alto (o meu pai, em solteiro, chegou a ter um quarto alugado em sua casa), tinha o seu lar em Carvalhal-Miúdo, no Cimo da Sebe (local com uma vista previligiada). Eu gostava muito de frequentar aquela casa e os lugares que a circundavam... havia, por lá, um pequeno terreiro onde até era possível jogar à bola...
Após a sua reforma regressou, definitivamente, a Carvalhal-Miúdo, procedendo ao cultivo e ao trabalhar das suas terras até que as forças o possibilitaram.
Era um grande regionalista e defensor das suas origens...

foto de Casimiro Martins Rodrigues (António Rodrigues, 1ª, à direita, junto à entrada principal da casa dos meus avós - Final da década de 70)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O milho, a farinha de milho e a broa

O milho era parte integrante na agricultura dos nossos antepassados, nestas aldeias. Era preponderante, e um ano com produção de muitos alqueires era fundamental. Do milho, após moagem, "nascia" a farinha, que tinha imensas aplicações, entre as quais o fabrico do pão desta serra... a broa.
Todavia até chegar a essa fase, ter-se-iam de passar por muitas outras...
Tudo começava com a preparação da terra, lavrando-a e cavando-a, a preceito, fazendo-se a sementeira a seguir (meados de Março). Quando a planta começava a fervilhar, procedia-se à sacha e ao seu arrendado (retirar ervas daninhas e acamar a terra). Depois tinhamos o desfolhar (as folhas colocavam-se ao sol, a secar, e depois de secas eram empalhadas, enleiradas e guardadas, em palheiros para alimento do gado), um tempo depois, a planta era despontada (o tirar da bandeira e da barbela) e mais tarde era retirada a espiga, que era levada para o palheiro, para posteriormente, se proceder ao seu escapelar (descamisar).
Nesta fase, as pessoas das aldeias costumavam-se juntar, auxiliando-se umas às outras e em reuniões nocturnas fazia-se esse trabalho, acompanhado de cânticos, contar de estórias e anedotas (lembro-me ainda de algumas escapeladas no palheiro do Cabeço). Aí separava-se a maçaroca (espiga) da palha envolvente e quando se encontrava uma espiga de milho-rei (milho vermelho) era uma festa... abraços e mais abraços.
Seguidamente tinhamos o debulhar e/ou o malhar e, depois, de todo o grão estar solto procedia-se à sua secagem em eiras, ou em terrenos calcados, ao sol.
De Carvalhal-Miúdo os donos do milho transportavam-no em sacas, às costas, para o moínho no Porto Ribeiro, junto ao Rio Ceira para proceder à moagem. Depois de moído, o milho já em farinha, retornava, pela mesma via, da mesma forma, e era guardada em arcas.
A farinha era consumida durante o ano, para os animais (galinhas, misturada com restos de couves, pele das batatas, etc.) e para a alimentação (papas de milho diversas, com sardinha, enchidos...), para fazer a broa.
A farinha, neste caso, era peneirada, amassada, fermentada e ficava a tendar... depois fazia-se a broa, ía ao forno a lenha e aí cozia. Em tempos de festas também de confeccionavam as bolas (tipo de broas recheadas com sardinhas, bacalhau, cebola, enchidos, carne...).
E a broa que a minha avó fazia era tão boa!...

foto de António Martins (Despontar do milho - Courela das Loisas - anos 70)

Comissão de Melhoramentos de Carvalhal-Miúdo

Apesar do desconhecimento de muitos (até então, nosso também) a Comissão de Melhoramentos de Carvalhal-Miúdo foi criada, mesmo que de forma não-oficial, durante o inverno do ano de 1948, numa reunião, na Rua Nova do Loureiro, nº 24 - 5º andar, em Lisboa, organizada pelo seu grande impulsionador António Rodrigues "Linardo", que conjuntamente com Casimiro Rodrigues Martins, Fernando Alves e António Alves alinhavaram as primeiras traves mestras do que seria premente melhorar e cuidar na aldeia.
Depois, outros habitantes e nascidos na aldeia, mas residentes noutras localidades, começaram a envolver-se igualmente e a criar um simples, mas efectivo, esqueleto de funcionamento com angariação de quotas, entre outras coisas.
Segundo apurámos, e ao contrário do que está escrito no blog da Comissão de Melhoramentos do Esporão (ler aqui), desconhece-se que estas aldeias se tenham fundido em Comissão única a não ser durante o projecto comum de electrificação das aldeias em questão, no final dos anos 60.
Dos muitos melhoramentos efectuados na aldeia, e com a ajuda da Câmara Municipal de Góis e outras organizações, criou-se infra-estruturas de abastecimento de água a partir de uma mina situada no Vale do Velho; construíram-se quatro chafarizes (três de uso humano e um para os animais) e construção do Lavadouro (esta última, não há certeza, mas pensa-se que já com a Comissão desagregada).
A Comissão de Melhoramentos de Carvalhal-Miúdo, nunca oficializada e agregada na Casa do Concelho de Góis, durou apenas até meados dos anos 50 (possivelmente 55 ou 56, não temos certeza), pelo que, com o passar dos anos, se tornou muito difícil efectuar qualquer tipo de melhoramento na aldeia.
A estrada de ligação à EN2 alcatroada para a povoação apenas teve efectividade nos anos 80, com a total responsabilidade da Câmara Municipal de Góis, após alguns pedidos insistentes por parte dos habitantes; a construção de uma escada em cimento a atravessar a povoação também foi conseguida nos anos 80 (por obra feita pela Câmara Municipal de Góis) e, mais tarde, já nos anos 90, a autarquia acabou por alcatroar o pouco que faltava de estrada que atravessa a povoação até ao fim da mesma, onde está o Lavadouro.
Com a desertificação do interior, neste caso particular de Carvalhal-Miúdo, e por vezes, o desinteresse da Câmara Municipal de Góis, a povoação deixou de ter algum interesse (para muitos - para nós não!). Talvez, se no passado a Comissão de Melhoramentos tivesse sido oficializada e mantida as coisas pudessem ser agora diferentes, mas de "ses" agora não interessa falar.
Este blog serve também, não apenas para contar histórias de Carvalhal-Miúdo e das Ladeiras e, consequentemente, das suas gentes, como também servirá, pensamos, para que ninguém se esqueça que estas povoações existem e precisam que olhem por elas, pois ainda há pessoas que gostam de viver nelas ou, simplesmente, visitá-las.

NOTA: Toda esta informação foi apurada de acordo com o que as pessoas mais velhas, e ainda vivas, nos disseram enquanto foram inquiridas sobre o tema. Agradecemos a todos aqueles que tenham informações mais fidedignas que as nos transmitam para que assim possamos recriar, com maior fidelidade, toda a história verdadeira da Comissão de Melhoramentos de Carvalhal-Miúdo. Obrigado!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Esperado...

...Diária e ansiosamente era aguardado pelas gentes da serra, nas suas respectivas localidades... Francisco Paula, o carteiro, que trazia as notícias dos familiares e amigos, para os habitantes serranos. Todos os dias palmilhava cerca de 30 km, num percurso feito a partir de Góis, com o saco da correspondência às costas, passando por todas as aldeias desta zona do concelho, demonstrando, sempre, as mesmas afabilidade e amabilidade, muito prestável para com todos os conterrâneos.
Quando soava o som da corneta, era ver gente saír de suas casas para lhe perguntarem se havia alguma carta para eles e /ou lhe trazerem uma sua para resposta a uma outra, ou na intenção dela obterem notícias de volta.
Outros houve, que exerceram a mesma função, fazendo, igualmente, o itinerário a pé, antes da bicicleta e da motorizada (lembro-me do Claudino...), mas o Chico Paula (como era conhecido), pelo seu carisma, tornou-se, quase, numa figura mítica da serra...

foto de Adriano Filipe (Não é o "Chico" Paula, mas terá sido um dos últimos carteiros a fazer as entregas a pé - percurso Carvalhal-Miúdo/Esporão - anos 70)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

"Chico Peras"

...Era a alcunha de Francisco Almeida.
Não era da terra, mas a Carvalhal-Miúdo veio desposar a D. Maria do Céu. Desse casamento nasceram cinco filhos, todos do sexo masculino. Tinha como profissão peixeiro e, em consequência disso, calcorriou inúmeros lugares por esta serra fora. Mais tarde largou essa actividade e dedicou-se mais à lavoura. Lembro-me, de ainda miúdo, estar junto a ele, no cimo da sebe, onde preparava o seu burro, animal que ficava num curral neste sítio (embora ele, o dono, morasse um pouco mais a baixo, na casa da figueira)... servia o macho para transportar o esterco dos animais (estrume) para as fazendas, a fim do referido exercer a função de adubo para as terras. O sr. Chico dava muita atenção aos miúdos, e ía explicando a sua tarefa, conforme os passos e os movimentos dados, depois perguntava-nos: - Querem um figo?...
Há um facto relevante na sua relação para com a aldeia e, posteriormente, para com toda a região: - Nas suas viagens, de compra e venda de peixe, acabou por trazer consigo o eucalipto (um, dois, três, depois mais...) que foi plantando nestes campos. Contribuiu, de certa forma, para (num futuro), se poder evidenciar (observando-se a época em questão, anos 50 e 60), algum vértice de riqueza, com o implantar da árvore e a proliferação do negócio da madeira, das resinas e da indústria do papel, no concelho. É certo que o eucalipto tornou-se uma árvore nefasta, pela secura que provocou nas terras, pois as suas raízes vão sugar a água a grandes distâncias, mas sob o ponto de vista evolutivo, veio proporcionar algum progresso. Hoje, talvez, se raciocine de um outro modo, e com perspectiva diferente...

foto de António Martins (ao cimo, à direita, ainda se veêm a figueira e as paredes claras da casa... Carvalhal-Miúdo - Setembro 2007)

terça-feira, 1 de julho de 2008

As Alminhas

Muitas povoações portuguesas têm estes pequenos monumentos religiosos (forma de culto, e hábito, que nos foi legado por alguns dos povos que habitaram a Península Ibérica, ex.: Celtas e Romanos, embora sem qualquer certeza) e quase todas, do nosso concelho os possuiem e os ostentam.
Para além do seu valor intrínseco no contexto da arte popular portuguesa (de que são uma original forma expressiva), são centros de meditação e culto, onde, habitualmente, se dizem orações a favor das almas do Purgatório (demonstração inequívoca da religiosidade do nosso povo).
Diversos energúmenos vandalizam este importante património (principalmente aquelas que não estão protegidas por grades), umas vezes em busca de alguns valores, que ali estão depositados, outras pela "simples" forma macabra de apenas destruír.
Em Carvalhal-Miúdo, as Alminhas foram recentemente limpas e pintadas, as suas paredes exteriores, por benfeitores particulares.

foto de António Martins (Alminhas, Carvalhal-Miúdo, Setembro de 2007)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Abel das Neves

Personalidade diferente da generalidade das gentes, destes lugares da serra...
Tendo a sua vivência em Carvalhal-Miúdo, casou com a D. Zulmira... dessa união nasceram quatro filhos, três do sexo masculino e um do sexo oposto. Um homem que parecia trazer, quase sempre, consigo uma expressão sorridente. Adorava confraternizar, beber o seu copinho e degustar o seu petisco (sempre nos acompanhava, quando íamos até às Ladeiras, ou ao Esporão, para humedecer nossas gargantas).
Quando aos domingos, dia de descanso da faina campestre, nos juntávamos com os residentes, lá surgiam os jogos de sueca... hábito, que para ele, era recebido de bom grado.
Recordo-me do sr. Abel, já velhinho, sentado no Lavadouro de Carvalhal-Miúdo, nos dias de calor, do verão, saboreando o fresco que trespassava aquele imóvel.
Conta-se que, quando era mais novo sentia especial gosto por ser mandador de bailes (esta capacidade refere-se ao baile mandado, em que alguém, de certa forma, tenta coordenar os passos a serem executados pelos bailadores)... tendo ele uma fonética única, e própria (onde o som era emitido de forma a que a palavra proferida parecia uma outra), era gáudio para muitos que o ouviam, ou seja, ele mandava, por exemplo, assim: - Um para dentro, outro para fora!... (o som r, expulsava-se de sua boca como algo semelhante a d..., portanto estão a perceber aquilo que, por ilusão, se parecia ouvir...)

foto de desconhecido (Sr. Abel, 1º, em cima, da direita, ao lado de sua esposa - Serra da Estrela, Agosto de 1970)

sábado, 28 de junho de 2008

José Rodrigues

Mais um dos nove irmãos do clã Rodrigues... natural das Ladeiras, como os restantes, casou em Carcavelos com a, posteriormente minha tia, Alice... desse enlace nasceu o Hélder. Trabalhou, até à reforma, em Lisboa, para a firma Rodrigues & Rodrigues.
Um homem único no seu sentido de humor, pelo jogo que fazia com as palavras e com as situações do dia-a-dia... era óptimo estar na sua presença. Era deligente, perspicaz e tinha, igualmente, uma graciosidade exposta pela ténue utilização poética do humor, na aplicação oral de grafismos de quadras, nas suas mais variadas expressões e revelações. Era interventivo, na conotação mais mordaz da palavra, participativo e empreendedor desse dom, que a natureza lhe proporcionou. Até, por vezes, o sério, vindo da sua parte, trazia condimentos de humor, apimentados com leve sarcasmo. Muitos dos seus episódios, de vida, haveria para comentar e aprofundar, que o espaço para os desenvolver, e fazer desenrolar, seria imenso... vou falar, um pouco, sobre uma coisa das mais simples do Mundo, mas, significativamente, engraçada (presenciada, ao vivo, traria mais sorrisos aos semblantes...).
Ainda namorava, com minha mulher (embora se vá namorando sempre!!!), quando num domingo, de há 32 anos, fomos convidados para um almoço na casa de campo do tio António Rodrigues, um seu irmão, em Capelas (zona de Torres Vedras), com mais família e amigos (um dia inolvidável...assim o considerou meu avô, Casimiro Rodrigues, até aos últimos dias da sua vida). No percurso para lá, fizémos uma pequena paragem em Torres, para tomar o pequeno almoço. Entrámos numa pastelaria (não me recordo qual), minha mulher (ora, namorada) ficou algum tempo exitante, expectante, a olhar para o balcão-montra da referida. O meu tio, que observava aquela situação, desde o início, abeirou-se dela e inquiriu-lhe (como se de semi-piropo se tratasse): -"A menina deseja um bolinho?"
(Já a tinha apresentado, quando de Lisboa saímos...)
Intrometi-me e disse ao tio"Zé": -"Tio, é a minha namorada!..."
Respondeu, ele: -"Sim, está bem!... Mas, então não lhe posso oferecer um bolinho?!..."
Até sempre tio! Grato pelos bons momentos que me proporcionou (embora não tantos, como deveriam ter sido...), e pela aprendizagem que deles usufruí!...

foto de Alice Rodrigues (Tio José, o 3º, em cima, a contar da direita - EN2, algures entre as Ladeiras e Esporão - década de 60)

Viagem à Ilha da Madeira (Organizada pela Comissão de Melhoramentos do Esporão)-1976

De 3 a 9 de Julho, teve lugar esta viagem à Madeira, que circunstanciou a minha estreia nos transportes aéreos. Foi uma organização da C. M. Esporão e, após a sua conclusão, efectuei a incrição como sócio da mesma, a convite do sr. Avelino Martins.
A semana turística decorreu de forma exemplar, com muita alegria e em são convívio.
Tivémos a oportunidade de conhecer o majestoso Funchal, o grandioso Pico de Barcelos, a estonteante Eira do Serrado, o profundo Curral das Freiras, a localidade pescatória de Câmara de Lobos, a beleza do Cabo Girão, a formosura do Monte (e seu parque), os viveiros de Ribeiro Frio, a sublime Ponta de S. Lourenço, a exótica Santana, o fulminante panorama observado no Miradouro de S. Jorge, as cascatas de água de S. Vicente, a enternecedora Ribeira da Janela e as belíssimas piscinas naturais de Porto Moniz, entre muitos outros locais de interesse, na Ilha.
Ficámos instalados no Hotel Santa Maria (no centro do Funchal), onde na noite de dia 8 usufruímos de uma espectacular e esfuziante "Noite de Folclore".
Para além disso, foi entabulado um concurso de quadras populares onde teriam de constar, obrigatoriamente, as palavras Madeira e Esporão. Oportunidade gratificante, por privar com amigos e colegas de tropa do sr. Avelino (e da Companhia de Seguros Bonança...), entre os quais o sr. José Manuel (que me teceu alguns elogios, demonstrando admiração, pela quantidade de quadras que apresentei a concurso... só que nenhuma delas foi a vencedora!...) e um outro, de Coruche, que conhecia o meu primo Luís C. Martins, e seus pais (o Luís nasceu em Coruche).
A viagem foi estupenda e ainda, hoje, está registada na minha mente!...

foto de desconhecido (Santana, Madeira - Parte do grupo excursionista, Julho de 1976)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

"Lá vêm os putos da Serra!..."

...Exclamavam as pessoas em Góis, que diariamente os viam chegar saltando dos carros dos madeireiros (e de outros, de quem conseguiam boleias), numa azáfama encalorada, junto à Fábrica de Bolos, eram os verões da década de 70!...
Raramente estive de férias na companhia do meu primo Luís Cunha Martins... nossos pais trabalhavam juntos e quando um usufruía de um determinado mês, o outro teria de optar por outro diferente, mas conta ele...
"Por voltas das 3 da tarde (15 horas), os miúdos juntavam-se nas Ladeiras, vindos das mais diversas aldeias da Serra, montavam nos carros dos madeireiros (com sua anuência) e lá íam a caminho de Góis, a fim de "saborearem" os belos banhos no Rio Ceira, era diversão até mais não... (referencia, ele, alguns dos miúdos que habitualmente se viam nestas andanças: -Ivo, Abílio e Jaime (Cerdeira); Paulo, Filipe, Paula (mulher do "Zé Manel", do Esporão)) e Pedro (neste há um pormenor a considerar... esteve por Lisboa e regressou às suas origens para exercer a função de guardador de gado (ovelhas e cabras) (Ribeira); Luís, Abílio e Alfredo (Esporão); "Zé Manel" (Vale Torto); Jorge, Anabela, Rosa Maria, Ana Paula, "Gi", Maria e, ele próprio (Ladeiras), entre outros)". Chegavam a Góis, e junto à Fábrica de Bolos aguardavam uns pelos outros (surgiam uns num carro, outros noutro, num movimento sucessivo, conforme a boleia obtida), aí, e depois de se reagruparem, compravam um bolinho (às vezes, surripiavam 2 ou 3... ora vejam lá?!...). De seguida, íam tomar banho, no Rio Ceira, a caminho de Carcavelos, junto ao moínho... mais tarde, novo banho, junto ao açude de Góis (onde, hoje, se encontra a esplanada de verão) e à tardinha era a hora de retornar. Entretanto passavam pelo Café Figueiredo, bebiam uma cervejinha (malandrice!...) e, uma vez mais, reunidos, junto às bombas de gasolina, à saída de Góis, no caminho para a Serra, procuravam novas boleias para regressarem às respectivas povoações.
Ocasiões havia em que o transporte não era conseguido com facilidade e, nessas alturas, chegavam a casa um pouco mais tarde... logo as caras apresentadas pelos seus pais, eram para não fazer sorrir... Mas, no dia seguinte alguém, em Góis, ía murmurar novamente... "Lá vêm os putos da Serra!..."

foto de António Martins (Ponte sobre o rio Ceira, Góis, Agosto de 1992)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

"Karaoke" no Esporão

No próximo dia 28, sábado, terá lugar, pelas 22 horas, na Casa de Convívio do Esporão, o "karaoke" dos Santos Populares.
No Esporão, aguardam a sua presença e a comprovação dos seus dotes vocais... Vá! Participe!...

Para mais informações, clique no "link" TERRAS DO ESPORÃO.

Alfredo Rodrigues

Irmão de meu avô materno e de minha avó paterna. Pessoa muito dócil, reconfortante, sempre pronto a deixar uma mensagem de esperança (mas ao mesmo tempo pessimista, característica essa que envolveu, e envolve, muitos estados de espírito de diversos componentes da nossa família)... sentimentos aflorados, voz pausada, mente lúcida, cultura acima da média, para a época (dos irmãos foi o que mais estudos obteve), figura de muito bom aspecto. Sempre pronto a ouvir (sabendo ouvir, o que é importante...) e a aconselhar. Tinha uma caligrafia maravilhosa (minuciosa), e uma escrita peculiar, adornada (muito gostava de receber as suas cartas, por isso lhe escrevia periodicamente...). Contrariamente ao que era habitual, pois os jovens tinham o sonho de ír para Lisboa, em busca de uma melhor vida, ele foi para Coimbra. Por lá casou, com a tia Idalina (tia depois de ter casado com ele, é óbvio...), desse matrimónio nasceram dois filhos (um do sexo feminino, Maria Helena e outro do sexo masculino, Luís Alfredo), trabalhou nos Correios, onde chegou a ser Chefe de Estação. Era uma presença muito querida... e eu estava sempre à espera do seu postal de Natal!

foto de Casimiro Rodrigues Martins (os irmãos...Casimiro, José, Alfredo, Olinda, Alzira, António e Manuel...faltam o Armando e o Francisco - Ladeiras, anos 50)

terça-feira, 24 de junho de 2008

Casimiro Martins "Camarão"

Padrasto de meu pai... sempre o considerei como avô, e ele, penso, sempre me sentiu como neto. Era um homem alto, de largas costas, mãos com dedos compridos (devido a isso a alcunha, que era um dos nomes, pelos quais era conhecido, um dos grandes "boxeur's" da época, Santa Camarão), voz grossa e bons pulmões (muitas vezes o seu vozeirão serviu como elo de comunicação entre Ladeiras e Carvalhal-Miúdo, onde não havia telefone, e até mesmo com Cortecega?!... O meu avô chegava à Ponta do Aterro, e vai daí... em alta voz transmitia os recados e/ou solicitava a comparência de alguém, com a máxima urgência. Depois era uma correria...).
Este avô paterno era irmão da minha avó materna, e o meu avô materno, irmão da minha avó paterna, portanto os meus pais são primos direitos. Confuso(a)?... (Aqui houve troca dos homens (não é o que estão a pensar!...), do local onde nasceram para o local onde viveram, após casamento. O meu avô de Carvalhal-Miúdo, nasceu nas Ladeiras e o meu avô das Ladeiras, nasceu em Carvalhal-Miúdo).
O avô "Camarão" continuou o negócio do sogro, com a taberna/mercearia, ainda hoje activo, nas Ladeiras, mercê da perseverança da sua filha mais velha, a minha tia Arminda...

foto de Casimiro Rodrigues Martins (da esquerda para a direita: avó Alzira, tias Arminda, Maximina e Isaura, e avô Casimiro Martins, à porta do estabelecimento, Ladeiras, anos 50)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Antigo Arraial de Santo António do Esporão de Goes/2008

A aldeia vizinha (e amiga) do Esporão levou a cabo esta festa, no Lugar Antigo (como antigamente se fazia), nos passados dias 13 e 14, onde a alegria, os bons petiscos e as deliciosas bebidas estiveram presentes.
Segundo o blogue Terras do Esporão... "os assadores não pararam nas duas noites, era sardinha, broas de carne, de sardinha, de bacalhau..."
Clique no link "Terras do Esporão", e leia a notícia na totalidade.
Já agora... depois, clique no link "Aldeia do Esporão", veja a notícia referente ao Arraial e siga o percurso indicado para poder observar mais de 90 fotos sobre o evento.
Ficam os parabéns, por mais uma realização levada a bom termo!...




fotos de Paulo Afonso, em link no blog "Aldeia do Esporão"

100 visitas

O blog "Notas de Carvalhal-Miúdo e Ladeiras de Góis" tem o prazer de anunciar, na pessoa dos seus administradores, que em 13 dias de existência consegue chegar à marca de 100 visitas únicas e 1059 páginas vistas.

Obrigado a todos os que já fazem deste espaço um ponto de visita nas suas viagens virtuais.

António Martins
Gonçalo Lobo Pinheiro

domingo, 22 de junho de 2008

A Escola, anos 30

...A finalizar a década de 30, meus pais encontram-se na Escola Primária... um a terminar a 4ª. Classe (hoje 4º ano de escolaridade), meu pai, enquanto minha mãe dava os primeiros passos, nessa nova fase da sua vida, entrando para a 1ª Classe. Ainda chegaram a frequentar a escola juntos, poucos meses... contam eles, que ainda deu para o meu pai auxíliar minha mãe, durante uma daquelas brigas de miúdos, que sempre aconteceram, nas mais diversas escolas (seria a empatia que começava o seu fortalecimento? Todavia os meus pais são primos direitos e, nesse caso, talvez se perspectivasse uma defesa no âmbito familiar...).
O meu pai, depois, fez o exame de Admissão (hoje inexistente) e alguns meses mais tarde partiu para Lisboa, para casa do nosso tio António Rodrigues, residente na Calçada do Carmo, onde possuía um estabelecimento de pronto-a vestir e por medida, iniciando, aí, a aprendizagem daquela actividade comercial, que veio a ser, de resto, aquela que, praticamente, exerceu toda a sua vida profissional.
...Mas voltemos ao bancos da escola!... Naquele tempo havia muitos miúdos por estas aldeias. A escola que recebia as crianças das Ladeiras e Carvalhal-Miúdo era na Cerdeira (anos antes era na Póvoa), tendo eles de percorrer, todos os dias (muitas vezes descalços) uma distância de quase 7 kms (ida e volta), por atalhos e "caminhos de cabras", muitas ocasiões à chuva, permanecendo, nesses casos, na sala de aula com as roupas molhadas.
A professora era a D. Albertina, de quem os meus pais gostavam muito (afirmam-no).
Referem também alguns nomes de contemporâneos seus , naquelas lides... (Pai: - António, Acácio e Armando (Esporão), Isabel e Patrocínia (Carvalhal-Miúdo), Fernando (Ladeiras), Elias (Vale Torto), Alberto "Grande" e Alberto "Pequeno" (Folgosa). Mãe: - Hermínia e Adelina (Esporão), José Cardoso (Pai do Abílio e do José Manuel) e Arlindo (Esporão), "Batata" (Vale Torto), José Barata e Arlindo (Ladeiras) e Clarisse (Cerdeira), isto entre outros que a memória do tempo, e de suas mentes, fez ofuscar).
...Conta meu pai que... um belo dia a professora lhe pediu que fosse à procura de um pau, ou um ramo, que pudesse servir de ponteiro, para apontar as matérias no quadro. Assim fez, e ironia do destino foi o primeiro a levar uma "ponteirada" da professora...
(se isto acontecesse hoje, no dia seguinte estaria toda a família do aluno na escola para "pedir contas" à professora... Ai educação, educação, por onde vais!...).

sábado, 21 de junho de 2008

Jogos de Verão

...Tudo começou com uma ideia de um grupo de jovens dos Povorais por volta de 1975, que contou com o incentivo do Padre António Dinis. Em 1976 fizeram um jogo de futebol com a Ribeira, nos Povorais, num terreno "arrelvado". Após este prélio, Povorais e Ribeira apresentaram e discutiram essa ideia com as suas congéneres da região, e a partir daí se deu início aos Jogos, no seu epogeu...
Passaram a ter a regular participação das aldeias da Ribeira, Cerdeira, Esporão, Povorais, Ladeiras e Vale Torto, uns num ano, outros noutro, e os jogos foram-se realizando anualmente, por volta de 15 Agosto, durante 2 ou 3 dias.
Aconteciam naquela altura do ano, para colidirem com o tempo de férias dos naturais das diversas aldeias, a fim de poder aumentar o número de inscrições para os mesmos. Gerava-se, desse modo, um vibrante ambiente, com um salutar e são convívio, apesar de alguns contratempos que aconteceram, num ou outro ano, mas que não chegaram para desvalorizar a importância e o valor que os jogos tinham.
Atletismo (corrida e lançamento do peso), chinquilho, matraquilhos, sueca, dominó, tiro ao alvo, damas e, claro, o futebol, eram as modalidades (em generalidade) em competição.


foto de António Martins (Avelino Martins entrega a medalha ao vencedor da corrida de veteranos - Agosto de 1977)

O futebol, inicialmente jogado em Góis (e por menos elementos por equipa), passou, a partir dos IV jogos a ser realizado no Esporão, no campo "Cassiano Bandeira", independentemente (numa e noutra circunstância) de qual fosse a aldeia organizadora do evento.
Participei pelas Ladeiras em dois jogos: 1977 e nos anos 80 (não posso precisar do ano correctamente). Em 1977, numa organização da Cerdeira, fomos jogar o futebol a Góis. Depois de termos almoçado bem, e bebido a condizer, nas Ladeiras, fazendo o percurso a pé até à vila, por entre os pinhais (agora seriam eucaliptais), atalhos e carreiros, chegando um pouco cansados e quase à hora do jogo. "Levámos 3-1 na pá".


foto de desconhecido (A equipa de futebol das Ladeiras - Agosto de 1977)

Na prova de Atletismo (corrida) as Ladeiras ganharam a medalha referente ao 1º classificado, pela vitória do meu primo Luís Cunha Martins (ficou em 3º o Luís Filipe Martins, do Esporão, também, meu primo).


foto de António Martins (Luís Cunha Martins recebe medalha de 1º classificado - Agosto de 1977)

Mais tarde já o meu filho participou nos jogos, chegando, inclusivé, a jogar futebol pelo Esporão. Em tempos anteriores a estes, alguém pensaria que por aquela serra iriam acontecer coisas deste tipo, nas suas aldeias?!...